Crônica: "Cadê a bandeira?" Por Adm. Oliveira Filho

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Esses símbolos são a base, as raízes da identidade de um povo, de uma nação. Sem eles não pertencemos a nada, não fazemos parte de nada, não somos nada.

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NEP-MA, São Luís, Maranhão, Brasil

A evolução dos costumes é normal e necessária. Por vezes, sou surpreendido por coisas que não tinha me dado conta de que mudaram radicalmente, e nem sempre para melhor, na minha concepção.

Eu e Katia fomos convidados, em meados de dezembro de 2017, para o “EVENTO” de formatura do “Doutor do ABC”, do nosso sobrinho João. Depois reunimos a família e amigos em um restaurante.

Por prudência foi feita a reserva de uma mesa com vinte lugares, pois estávamos em dezembro, mês de alta estação. Pelo horário limite da reserva se fez necessário que eu não participasse do “EVENTO” e fosse assumir a mesa na hora marcada pelo gerente.

Sentado na cabeceira de uma longa mesa vazia, passei a revirar meu baú de lembranças e encontrei rapidamente o que procurava: minha festa do ABC. Passaria no mínimo uma hora sozinho e tinha tempo suficiente para relembrar os poucos flashes ainda existentes na memória sobre essa fase inicial de estudante.

Nessa época, eu e meus irmãos estudávamos em um colégio municipal, perto de casa, onde nossa mãe Maria Lúcia era professora do ensino primário. Era um pequeno estabelecimento de ensino de um distante bairro suburbano da capital Alencarina, onde os poucos alunos tinham, além da dedicação dos professores, uma excelente merenda.

Éramos uns quinze formandos e a festa ocorreu dentro de nossa própria sala de aula, na presença da diretora, das professoras e das nossas mães. Pais nunca iam a essas coisas.

A farda usada durante o ano foi a roupa que utilizamos na formatura. Ouvimos rápidas palavras da diretora, uma explanação das professoras e uma mãe falou em nome de todas agradecendo a elas; palmas e fim da primeira parte. A segunda era a tão sonhada foto de formatura. Eu ainda tenho a minha.

Essa foto, durante muitos anos, foi produzida no formato padrão nacional. No cenário havia pequena mesa com cadeira, onde o formando sentava com um lápis na mão fazendo de conta que assinava um livro. Na mesa havia também três pequenas bandeiras: a do Brasil, a do Estado e a do Município.

Essa mesa ficava a um metro da parede, onde estava um mapa do Brasil fixado um pouco acima de onde ficaria a cabeça do aluno, possibilitando ao fotógrafo enquadrar, no ângulo frontal, a mesa e seus objetos, o aluno e o mapa do Brasil. Com pouquíssimas variáveis, esse foi durante décadas o padrão da foto de formatura do “Doutor do ABC”.

Ainda viajava em lembranças envoltas em nostalgia quando comecei a receber uma enxurrada de imagens e vídeos, via celular, dos familiares que estavam no “EVENTO” do João. Ele estuda em uma das maiores e melhores instituições de ensino do Ceará, que dispõe de várias unidades na capital, abrangendo do jardim à graduação superior, em variadas profissões. Top dos tops, sorte a dele.

Quatro turmas, só dessa unidade, concluíram o 1º ano do ensino fundamental, correspondente à antiga alfabetização. Mais de sessenta alunos em trajes de gala acompanhados por pais e convidados lotaram o espaçoso auditório. O EVENTO com duração de três horas tinha todo um cerimonial com começo, meio e fim. Crianças de sete anos sendo colocadas em uma festa como adultos e todos achando uma maravilha.

As mensagens pararam depois de muito tempo, e então me chegou a que seria a última imagem recebida por mim. Foi a que me causou maior impacto e a que motivou a criação deste texto: a foto de formatura. Pela quantidade de imagens e vídeos que recebi, nem me lembrava mais dela.

No auditório, em nenhuma imagem ou vídeo identifiquei em que local ocorria aquele evento. Lógico que eu sabia que era em Fortaleza, Ceará, Brasil, mas não havia nenhuma bandeira! Minha esperança recaiu em encontrá-las justamente na foto de formatura do João. Ledo engano! Ele encontrava-se sentado em uma pequena cadeira, posicionada atrás de uma mesa, onde não havia nada em cima. Ele estava sentado somente com o braço esquerdo sobre a mesa e já estava pronto para sair e dar lugar a outro, em uma imagem não frontal, mas em ângulo com a mesa.

Ao fundo, como num estúdio, uma cortina com panos coloridos limitava o campo de visão da foto. A informalidade é a palavra que melhor se aplica para essa imagem, e a ausência de símbolos pátrios nos deixa sem noção de onde ocorreu tal evento. Fiquei me perguntando, como se pode iniciar a formação do cidadão sem conscientizá-lo da importância destes símbolos desde cedo?

Esses símbolos são a base, as raízes da identidade de um povo, de uma nação. Sem eles não pertencemos a nada, não fazemos parte de nada, não somos nada. É isso que queremos para as crianças que são o nosso futuro como povo, como nação?

 

Por: Adm. JOSÉ PEREIRA DE OLIVEIRA FILHO CRA 0296 MA

Data de Publicação: 
sexta-feira, 23. Março 2018 - 9:09
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